22.8.05

Sou do MGI

Meu amigo e eu acabamos de fundar o político MGI:
Movimento Geral da Inércia
Quem quiser se filiar tem que, antes de qualquer coisa, deixar tudo absolutamente como está. Em seguida deve tentar se cadastrar, mas não haverá retorno de e-mail ou produção de material promocional como bonés e camisetas para distribuição entre os filiados, pois isso iria totalmente contra os princípios éticos do MGI.
Haverá uma manifestação na Av. Paulista na qual, uma vez todos reunidos, deitaremos no chão da avenida e só. Nada diremos, nada faremos, nem explicar explicaremos.
MGI! MGI! MGI!
Nem isso gritaremos.

15.8.05

Incompreensão torta

Acordei com nova invasão sonora vinda do vizinho. Dessa vez eu quis ouvir melhor, botei a orelha para fora da janela buscando aquele som mais tímido do que os anteriormente produzidos por eles, eles, a idéia sobre meu vizinho vem sempre no plural. Eles, o casal da casa vizinha, eles. Mas seria ele ou ela? Esse som eu também já havia ouvido outras vezes. Meu vizinho, ele, me dá impressões diversas, quase nunca o vejo, tem cara de poucos amigos, sempre carrancudo e recluso.

Descobri por acaso.

Certa vez, esqueci a chave de casa e tive de pedir para pular o muro do quintal da casa deles para a minha. Sim, isso ainda pode acontecer. E foi graças à ela, à gentileza dela, mulher doce, mal-cuidada e de olhos acostumadamente estarrecidos, que entrei em casa. Recentemente houve ainda uma segunda vez que ficamos para fora de casa, pleno meio do dia. Cláudia (minha escudeira) nos trancou para fora, ela, eu, Bamboo e Tião, o valentão, e lá vou eu pedir para que me deixasse entrar pela casa deles novamente.
- Isso vai virar hábito. Não vou mais deixá-la passar por aqui.
Fechou a porta e ponto final. Sujeitinho mais encardido, pensei. Em meio ao delírio da boa-vizinhança fui arrumar uma escada grande...
Meu vizinho fabrica violinos e violoncelos. Um artesão, quem diria? Isso muda tudo! Quem já viu Tous les matins du monde da novela de Pascal Quignard, filme de Alain Corneau? Minha câmara das idéias românticas é larga e tem espaço de sobra para a impressão de que somente seres sensíveis são capazes de manufaturar instrumentos musicais desse gabarito. Mas e os gritos tenebrosos, a sovinice? Seriam aspectos do gênio total, do dolorosamente sensível, do incapaz de compreender dos outros, nós?
Seu filho jamais ouvi e talvez fosse ele a tocar piano de forma tão emocionante na manhã seca.

12.8.05

Brigas e berros

De um sonho estranho acordei com sons estranhos. Era o topo das vozes do casal vizinho entrando pela minha janela. São casados há anos. Não foi a primeira briga deles que ouvi, que a vizinhança inteira ouviu...
Era uma briga feia, à moda antiga, talvez antiga para mim que não brigo dessa forma, aos berros, como bicho ferido num mundo em chamas. É realmente "o fim". Foi hora e meia, as vozes já roucas. Eram lufadas de gritos que iam e vinham. Vez ou outra, a mão dele batia numa mesa a cobrar seu respeito de macho desagradável. Ele a chamava de má, de burra, de vazia, de puta, e de má de novo, tudo por três vezes, tudo no topo da voz, da garganta arranhada e berrava fora de si:
- Você me cutuca! Você me cutuca! Você me cutuca!
Ela eu não entendia muito bem, gritava que terminaria sozinho, soava maltratada, mais rouca, acho também que mais idiota por se manter ali naquele insulto contínuo e deletério. Mas ela insistia, cutucava. Ele nada ouvia ou tolerava. Chingava e chingava e humilhava a mulher. Até que, em meio a barulhos indistintos de móveis e objetos, ela grita:
- Pára, pára, pára!
Silêncio. O resto da manhã foi só silêncio no vizinho. E eu matutando, imaginando a razão de persistir uma relação tão esmigalhada.

6.8.05

Atenção!

Devido ao andamento exultante da nossa popularíssima CPIzza, declaro-me vencida e de amanhã em diante serei corrupta, mas corrupta convicta, estarei aberta a todo o tipo de esquema escuso e deletério, portanto:
1.Poderei receber meu mensalão retroativo, desde jan/2003, ou seja, meus $870 mil reais, mesmo sem correção, tudo bem. Negarei tal coisa e jamais revelarei a fonte, prometo. A conta do banco será passada pelo celular. Porque nois num é mané.
2.Começarei a produzir meu programa eleitoral. Pura vaidade, fico bem na fita e quero aparecer no horário nobre da tv, e na faixa. E também chamarei gente famosa para aparecer mais um pouco. Será uma palhaçada das melhores, prometo.
3.Passarei a ter 90 dias de férias, 14º salário e todos os benefícios existentes, além de carro com motorista. Meu patrão que se vire, que roube bastante de alguém e que explore mais os pobres, afinal, são menos favorecidos ou não são?
4.Para terminar, garanto entretenimento e cultura a todos que me ajudarem a chegar lá, a roubar mesmo nas horas mais difíceis, mas só vou ajudar quem me bajular muito, tem que provar por A + B que faz qualquer, mas qualquer coisa para mim.

2.8.05

Maksoud

Elegi, em nome de toda a população paulistana, a qual jamais representei de alguma forma, as calçadas do Maksoud Plaza Hotel como as mais agradáveis da cidade. Por lá Tião e Bamboo me arrastam para dois passeios diários. Na verdade, acompanho-os em duas cagadinhas de Tião, um xixizão de Bambu e milhares de mijadelas em tudo o que se poderia chamar de poste do Tião, o valentão.

Por lá também existem inúmeras lixeiras de variados tamanhos e formas ao longo de suas calçadas. Um milagre de civilidade. Então é só catar o cocô e jogar num desses recipientes. Pronto. O sistema urbano funcionou.

Mas nem sempre é simples assim. Dias atrás caminhavam os cães comigo, quando flagrei um cãozinho também com sua dona, no momento em que ela fazia sua parte no recolhimento dos dejetos (dele!) da calçada. Era um desajeito só. O saquinho de supermercado feito saquinho de lixo, encontrava-se pouco aberto e a bocado saquinho esbarrava no cocô ao ser entornado para dentro. O cocô quase nos dedos da vovó e a meleca toda quase caindo de novo na calçada. Cena nojentade dar dó. Como fecharia o saquinho todo lambuzado? Como chegaria até a lixeira, uma das tantas lixeiras do Maksoud sem se sujar com aquele saquinho balançando todo emporcalhado? Não parei para aconselhar ou mostrar a técnica de recolhimento de cocô mais usada por nós, possuidores de cachorros. Sorte dela livrar-se dos meus sábios conselhos dados por aí a esmo. Continuei a caminhada antes, acho, de provocá-la com meu embaraço.

Voltemos ao que interessa. O jardim do Maksoud cuidadíssimo até hoje cresceu, criou sombras por entreverdes e recriou alamedas, hoje vencidas pela transformação de casarões em estacionamentos áridos cheios de billboards impertinentes e pela ignorânciados moradores ao cimentar, entenda sufocar, as raízes das árvores até seutronco, e que tristeza imensa vê-las enterradas vivas, que alegria imensa quando suas raízes rompem o chão rebelando-se por uma melhor condição devida, e enfim, alamedas vencidas por grades inevitáveis dos prédios, que afastam as árvores das calçadas e dos novos prédios com três palmeiras estratégicas no que chamam de jardim. Por que palmeiras? Por que sempre palmeiras, meu deus?

No Maksoud, há trepadeiras e arbustos e gramas e folhagens e florzinhas e árvores maduras de vinte anos de idade ou mais, e também palmeiras. Háquem o considere um hotel ultrapassado, de arquitetura datada. A lembrançado Maksoud remete mesmo aos anos 80, de Menudo e a gritaria insana de garotasvirgens lá embaixo, de Axel Rose no vigésimo andar jogando uma cadeira nos fãs, de Sergio Rabello e seu show de piadas por temporada contínua no teatro do hotel. É mesmo um elefante de hotel, convenhamos. Ainda assim simpático e generoso no espaço, na vista e nos apartamentos,que já espiei não sei quando, mas espiei. A pena é que cedo ou tarde um grupo de espanhóis ávidos chega, compra o hotel e reforma tudo colocando três palmeiras em cada canteiro. Adeus alamedas, adeus passeio agradável, adeus verde.

Atualmente ser moderno é invariavelmente ser mal-tratante, pretenso e frio, além de ter uma orquídea branca no balcão da frente e um ou dois seguranças de ternoescuro do lado de fora.