Maksoud
Elegi, em nome de toda a população paulistana, a qual jamais representei de alguma forma, as calçadas do Maksoud Plaza Hotel como as mais agradáveis da cidade. Por lá Tião e Bamboo me arrastam para dois passeios diários. Na verdade, acompanho-os em duas cagadinhas de Tião, um xixizão de Bambu e milhares de mijadelas em tudo o que se poderia chamar de poste do Tião, o valentão. Por lá também existem inúmeras lixeiras de variados tamanhos e formas ao longo de suas calçadas. Um milagre de civilidade. Então é só catar o cocô e jogar num desses recipientes. Pronto. O sistema urbano funcionou.
Mas nem sempre é simples assim. Dias atrás caminhavam os cães comigo, quando flagrei um cãozinho também com sua dona, no momento em que ela fazia sua parte no recolhimento dos dejetos (dele!) da calçada. Era um desajeito só. O saquinho de supermercado feito saquinho de lixo, encontrava-se pouco aberto e a bocado saquinho esbarrava no cocô ao ser entornado para dentro. O cocô quase nos dedos da vovó e a meleca toda quase caindo de novo na calçada. Cena nojentade dar dó. Como fecharia o saquinho todo lambuzado? Como chegaria até a lixeira, uma das tantas lixeiras do Maksoud sem se sujar com aquele saquinho balançando todo emporcalhado? Não parei para aconselhar ou mostrar a técnica de recolhimento de cocô mais usada por nós, possuidores de cachorros. Sorte dela livrar-se dos meus sábios conselhos dados por aí a esmo. Continuei a caminhada antes, acho, de provocá-la com meu embaraço.
Voltemos ao que interessa. O jardim do Maksoud cuidadíssimo até hoje cresceu, criou sombras por entreverdes e recriou alamedas, hoje vencidas pela transformação de casarões em estacionamentos áridos cheios de billboards impertinentes e pela ignorânciados moradores ao cimentar, entenda sufocar, as raízes das árvores até seutronco, e que tristeza imensa vê-las enterradas vivas, que alegria imensa quando suas raízes rompem o chão rebelando-se por uma melhor condição devida, e enfim, alamedas vencidas por grades inevitáveis dos prédios, que afastam as árvores das calçadas e dos novos prédios com três palmeiras estratégicas no que chamam de jardim. Por que palmeiras? Por que sempre palmeiras, meu deus?
No Maksoud, há trepadeiras e arbustos e gramas e folhagens e florzinhas e árvores maduras de vinte anos de idade ou mais, e também palmeiras. Háquem o considere um hotel ultrapassado, de arquitetura datada. A lembrançado Maksoud remete mesmo aos anos 80, de Menudo e a gritaria insana de garotasvirgens lá embaixo, de Axel Rose no vigésimo andar jogando uma cadeira nos fãs, de Sergio Rabello e seu show de piadas por temporada contínua no teatro do hotel. É mesmo um elefante de hotel, convenhamos. Ainda assim simpático e generoso no espaço, na vista e nos apartamentos,que já espiei não sei quando, mas espiei. A pena é que cedo ou tarde um grupo de espanhóis ávidos chega, compra o hotel e reforma tudo colocando três palmeiras em cada canteiro. Adeus alamedas, adeus passeio agradável, adeus verde.
Atualmente ser moderno é invariavelmente ser mal-tratante, pretenso e frio, além de ter uma orquídea branca no balcão da frente e um ou dois seguranças de ternoescuro do lado de fora.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home