28.2.07

Numa fria

Então quer dizer que a virada do milênio, a virada do tão esperado ano 2000, já veio, já foi e não nos trouxe carros voadores, não nos fez vizinhos de porta dos alienígenas, não nos deu telefonemas holográficos, não nos levou para férias em Marte, nem nos ofereceu comida em cápsulas.

Mas nós evoluímos. Certo? Essa mesma virada nos trouxe a possibilidade dos 100 anos, nos fez conhecer pessoas ao redor do globo sem sair de casa, nos deu clones de bichos como nos ofereceu variedades de tudo o que temos, e?

Evolução, evolução. Acabo de discutir arduamente com um amigo meu sobre evolução. Apontei que, um outro amigo de amigo meu diz que apesar das implicâncias espirituais implícitas nessas evoluções, não aconteceu uma evolução espiritual e sim, uma evolução matérica, científica. E é melhor eu parar por aqui antes que a cátedra possa me condenar. Ô assuntinho espinhoso!

O que é espírito também não vou definir, cada um entende o seu como quiser ou puder. Sou democrática. Mas ele diz que não evoluímos espiritualmente porque o espírito não vem impresso nos genes, ou seja, não se herda a evolução espiritual. Está aí a polêmica da história. E ele diz que é tudo ba-le-la. Que não somos mais evoluídos do que nossos ancestrais e mais, diz que se assim não fosse, hoje acharíamos Sócrates um pensador limitado. Ou saberíamos da genialidade dos filhos de Darwin. Seria simplesmente natural.

Não foi assim. Não é assim. A espiritualidade é desenvolvida durante a vida, com a cultura que é ou não transmitida de vivo para vivo. Esse amigo de amigo meu diz. Exemplos e raciocínios não faltam na boca dele. O cara é persuasivo.

Então eu observo o mundo e sinto aquele calor discrepante, vejo aquela massa cinzenta no horizonte, ouço do rádio aquelas violências sem fim e pego aquelas contas a pagar, não para pagá-las, mas para ver o quanto eu não tenho de dinheiro para pagá-las.

Virada do milênio, evolução matérica, evolução espiritual, espírito, filhos de Gandhi, contas... nisso tudo há uma certeza: vamos todos morrer assados, aos pouquinhos.

What a hell of a wonderful world!

7.2.07

De que lado?

Nossa humanidade. Pasma. Cansada. Levada ao mínimo da condição reconhecida de cada um. O ruim fica pior e o pior piora. Essa é a perspectiva vivida por todos. Para baixo, continuamente. O que muda é a sorte de cada um, o que varia é o humor, o jeito de levar. E só.

Acha que adianta falar sobre isso? Acha que adianta revoltar-se, gritar com o vizinho, ir aos jornais, mandar email indignado para todos os contatos da caixa postal, sair pela rua em protesto? Ou sua sorte é que vai mal no momento? Ledo engano, figuramos nas estatísticas de encarecimento da vida no planeta, do aumento gradativo do desemprego, da desigualdade e do empobrecimento humanos. Tudo vira estudo, notícia. E só.

É uma falação descontrolada na busca de caminhos inexistentes. É um tal de especialista analisando "quadros". Querem acalmar a manada? Nós, essa manada? Os amigos se desentendem, se endividam, as famílias se corroem. Os patrões abusam. Boas posições são para os que vendem suas almas diariamente. Vendem sim. E só.
Hoje é preciso nascer ou tornar-se vendedor, de si, do outro, de produto. Hoje é preciso admirar o consumo, as grandes corporações, a publicidade milionária. Hoje é imprescindível pensar em si mesmo, no bem-estar próprio. Pois o tempo que sobra para o mais, passa na comiseração de um olhar. Esó.

Para ser considerado, procurado, bajulado, precisa-se apenas terdinheiro, não importando a proveniência do mesmo, nem o grau de parentesco com os mais sórdidos. Está consumindo? Perfeito. Jovem, bonito e magro, o diabo frequenta os melhores lugares do mundo; sempre recomendado, citado, esperado e muito bem tratado. E só.

Não importa quem somos, importa o que parecemos. A matéria é real e a penúria, seja ela de qualquer natureza, é escondida até não se poder mais esconder. Infelicidades, desilusões e desesperanças são tratadas com barbitúricos. Escândalos são tratados com glamour e u quê de notoriedade. A pobreza não é tratada. E só.

Vida maravilhosa. Mundo fantástico. Humanidade bela! Agora queremos viver mais e por mais tempo. Temos tecnologias inacreditáveis até para o que não se precisa. E quem paga a conta? Que conta? Podemos tudo. Reinamos no mundo. Somos os tais. Os tais. Nós somos os tais. E só.