29.5.08

Des-maio

Viram-se por acaso. De carro, de tarde, o paulista telefonou para o carioca.- Estou perto da sua casa.
- Perto onde?...

- Na Augusta.
- Passa aqui, então.

Nada mais normal numa relação entre amigos brasileiros. O paulista passou, tomou cafezinho e pensando no que tinha que fazer, porque tinha uma porção de coisas relativamente importantes a fazer, ouviu:
- Cara, o médico vai me matar!
- Por quê?
- Porque tem um exame aí que não quero nem ver. Meu colesterol, cara...
O carioca não era mais um jovenzinho em flor, e sua mulher estava gravemente doente em fase de tratamento, então, pressentindo o cuidado pedido pela situação imediata, o amigo resolveu inquirir acerca do problema, logo se oferecendo para acompanhá-lo. Relutância só aconteceu na hora de entrar na sala do médico, mas o paulista decidido ante aquele receio dos resultados de exames do carioca, entrou junto.
- Doutor, estão aqui.
- Hum, hum...
- Doutor... tenho me sentido muito estranho, uma coisa ruim. Andropausa, Doutor?
- Andropausa nada. É isso, isso e isso, fique tranqüilo, o bom é que você esta aqui.
- Não numa cama de hospital, não e mesmo?
- Exato! Check-up serve para isso. Bem, isso é assim, e isso pode realmente ser aquilo, e se for, a gente trata e acaba o problema.
- Puxa, que bom, vou viajar no fim-de-semana para cuidar do espírito, tudo bem, Doutor?
- Claro, vá beber a água do rio de lá, sabe qual é o Rio?
- Tietê?
- Exato! Água cristalina, maravilha, pode beber e fala que fui eu quem indicou.
- Qual é o nome da pessoa?
- Fulano de tal. Agora, é bom que você faça mais um exame antes e quero que seja entre hoje e amanhã.
- Já assim?
- Minha secretária vai marcar assim que você sair e depois de feito o exame, aguarde o resultado, não vá embora sem que tenha saído, certo?
- Mas então isso é grave, Doutor!
- Fique tranqüilo. Preciso de mais pistas e só esse exame pode me dar.
Durante a consulta o paulista já havia trocado algumas idéias e percorrido mais de um assunto com o simpático Doutor, quando entendeu que, com o carioca ele ficaria até o final do novo exame. De 2h da tarde, passava das 4h e se fez 6h, o exame era às 7h. O carioca apreensivo, a doença grave da mulher, que hora para descobrir que ele, ele!, tinha uma coronária parcialmente entupida! Jejum foi pedido e o amigo o acompanhou nele. Na sala de espera, o paulista contava dramas menores de sua vida e fazia o carioca rir com o vislumbre de sacanagens impossíveis. Às 7h40, chegou, provavelmente um residente novinho e roliço dizendo que havia alguém chegando d'uma CTI de helicóptero e que o exame seria possível apenas dentro de duas, duas horas e meia. Conversas ali, internação, assustaria a mulher assim? Melhor ir para casa? Ao telefone com o Doutor, em seguida com a mulher, possível cateterismo, tubo subindo pela veia, alto risco, parecido com o seu, buraco na pele, experiências tenebrosas, exames extensos, contraste, coração com placas. Ele poderia morrer de uma hora para outra. Como de uma hora para outra morreram os pais do paulista: coração. O cunhado do carioca também acabara de falecer. Não, não seria nada.
- De repente... morro assim... vai ser bom, não foi?
- Roubando minha idéia de morte repentina...
- Olha para mim, cara, eu não tenho o physique du rôle de um doente do coração! Sou magro, porra, detesto carne engordurada!
- Melhor ir para casa.
Na porta, do lado de fora do hospital, o carioca acendeu um cigarro, o paulista outro, a piada foi obviamente sobre morrer do coração já com os cigarros tragados. Uma nova conversa telefônica do carioca com a mulher acontecia objetiva e cuidadosa. O paulista se sentiu cansado, e mais cansado. Que situação! Já era noite, era tarde, sentia fome, e pensava no dia seguinte de cão que teria. Ali esperava o finalmente. A conversa do amigo infinda. A sacola de exames em sua mão pesou, sentou-se no corrimão e sentiu melhorar. O carioca decidia deixar o exame para a manhã seguinte. Melhor, melhor. Iria para casa. O paulista gostou de ouvir aquilo, sabia que o amigo ficaria melhor em casa do que internado no hospital. De repente, entendeu sentir uma queda de pressão, ia passar, pensou em se sentar lá dentro, esperava o amigo, iriam embora dali, mas a conversa do carioca nunca mais terminaria, o paulista respirava cansado, tinha que passar, o carioca explicava a mulher isso, isso e aquilo. Rapidamente a pressão do paulista desabava, sua vista enegrecia e sua forca o deixava, finalmente decidiu entrar na recepção do hospital para sentar-se esperando o fim do telefonema. Pegou a sacola e sem nada falar nem olhar para o amigo foi até a entrada, de porta automática, esperou-a abrir, entrou enroscando a sacola entre as pernas, deu um passo embriagado e desmaiou na frente da recepção do hospital.
- O senhor está bem?
- Você é paciente?
- Estou... não...
- Não se levante ainda. Traga uma maca!
- Nossa, minha pressão caiu...
- Acontece.
- Vou levantar, estou acompanhando um amigo, não tenho nada.
E ajudaram-no a se levantar para se sentar numa cadeira.
- Meu, por favor, tira essa maca daqui! Se meu amigo vir, vim para dar uma forca para ele! Não, nem cadeira de rodas, estou bem, foi só uma queda de pressão!
- Vamos medir sua pressão, venha...
- Espero que ele não me tenha visto passar mal, a mulher dele está gravemente doente, ele está dando o maior suporte para ela e teve que fazer uns exames... e eu vim acompanhar para dar uma forca para ele, entende?
- Entendo, tudo bem, você não precisa passar pelo médico, mas vamos só tirar sua pressão. Vou trazer seu copo d'água.
E andando ainda aturdido, quente e inconformado com a peça que seu corpo acabava de lhe pregar, o paulista pegou a sacola de exames e foi saber o que já sabia, sua pressão estava baixa. Nunca na vida desmaiara. O carioca, um hipocondríaco assumido, já tinha passado por algumas doenças, dependências e piri-paques, mas ele, quinze anos mais jovem, um natureba esportista, nunca havia parado num hospital, raramente e muito raramente tomava remédios, sempre os detestara, jamais tivera nada, nem um ossinho quebrado sequer. Concluiu sentindo-se muito constrangido, que ele, a figura supostamente forte da situação, acabou por desmaiar assim, sem que nada demais acontecesse, sem ter visto tripas ou encrencas que só um hospital pode resolver e bem diante da coronária entupida do amigo, que já tinha a mulher gravemente doente. A vergonha acontecia devido ao aspecto bizarro que o acontecimento imprimia no todo.
Eles se encontraram na recepção e foram comer algo na lanchonete, o que havia para ser foi esclarecido.
- Você sempre teve isso?
- Eu nunca desmaiei na vida.
- Então o que aconteceu?
- Nada aconteceu. Devo ter ficado impressionado, sei lá, coisa mais absurda...
- Hehehe, você é igual à fulana e ao meu irmão!... Não podem ver sangue que desmaiam!
- Meu, eu não vi sangue, você deve ter visto sangue... que papelão.
Os dois riram de tudo. O paulista levou o carioca para casa contando que, ao contrário do amigo, ele queria largar o cigarro, esse vício maldito nada a ver com sua vida vegetariana bastante saudável, e que acharia uma academia de tai chi para o amigo. Despediram-se.
Voltando para seus afazeres, para si mesmo, o paulista experimentou uma estranheza. Algo bom em desmaiar, não que quisesse sair desmaiando por aí, mas poderia não ter sido ali, mesmo sabendo que em outra circunstância isso muito provavelmente não aconteceria, como jamais acontecera. Desmaiar revelou-se uma entrega absoluta, de volta acalmada, uma fragilidade que não conhecia. Seu ser silenciando.
Ainda estranho, 9h30 da noite, foi rumo ao supermercado comprar laticínios e espinafre, que prometera pela manhã.

20.5.08

Onde é que nós estamos, Roger Rabbit?

Deparei-me com as DÚVIDAS ÉTICAS, do caderno VITRINE de 17/05/2008, da Folha de S.P., cuja pergunta era: "É errado usar roupas feitas de pele de coelho?" e horrorizada, percebi que mediante à explicação fornecida pelo Sr. Cyrus Afshar, eu muito provavelmente me tornaria uma criadora de coelhos para pesquisa, sem saber que NÃO SE PODE JAMAIS pautar uma questão ÉTICA simplesmente por questões legais, econômicas, ou ecológicas. Do contrário, ainda comercializaríamos gente como no século IXX, o que era legalmente estabelecido, economicamente vantajoso e ecologicamente correto (uma energia limpa!).


Não é possível que um jornal desse gabarito, nessa altura do campeonato "Planeta x Ignorância", promova uma declaração tão obtusa. E a ilustração não poderia ser mais leviana.

Usar pele de coelho é ETICAMENTE CRIMINOSO, se levarmos em conta apenas dois fatores:
1o. a total falta de necessidade de nos cobrirmos com essa ou qualquer outra pele de animal
2o. a vida do animal (que no texto não existe nem importa!)

Ah, por favor, já é obrigatório sabermos que a criação de animais para o abate e seus subprodutos começa a passar por uma franca revisão e reestruturação, quanto a sua cultura, métodos e finalidades.

O movimento de um ser humano consciente atual é o de perceber a existência de um animal pelo ponto de vista do animal, simples!, ou seja, basta começar imaginando a si mesmo trancafiado numa jaula, numa fila de abate ou acorrentado, assim como fizemos com os negros - que até o fatídico século IXX não tinham alma, de acordo com a percepção da época, dos brancos.

Afinal, isso é história, isso significa que somos capazes de nos tornar mais desenvolvidos.

Já a ÉTICA, essa bela palavra, se baseia em premissas filosóficas, que se tornam códigos sociais ao longo do tempo, nunca o inverso. Pois não se pode usá-la sem comprometimento e sem compaixão.

ÉTICA é um sentimento que a sabedoria desenvolve e utiliza. O resto é lacuna.

Para se ligar no movimento atual:
http://www.pea.org.br/crueldade/peles/index.htm
Para ler o texto publicado na Folha de São Paulo:
http://modernmix.blogspot.com/2008/05/errado-usar-roupas-feitas-de-pele-de.html